4 de julho de 2008

Na sala de espera: Meu inferno e meu céu.

Revisão da lente contato, gente demais e gente falando demais e muito alto. A mãe, do tipinho perua, e a filha, a aprendiz, que falava alguma coisa sobre céu e inferno:
- Quem faz coisa boa vai pro céu e quem faz coisa ruim vai pro inferno, né mãe?
Inferno, céu, coisa boa, coisa ruim. Até então é nisso que as pobres crianças, esganadas pelos pais, tias da escolinha e tudo mais, acreditam. Depois você cresce um pouco e te ensinam uma coisa que se chama perdão, e que vai te safar de muita coisa, geralmente é quando o teu irmão mais novo te dá uma mordida, e teus pais te obrigam a voltar a falar com ele, e você começa a pensar: se eu, que sou um moleque, tenho que perdoar as pessoas, Deus, que é O cara, vai me perdoar se eu não devolver o troco que o rapaz passou a mais né? Além do mais, a tia do catecismo disse que tinha o purgatório pras almas arrependidas. O catecismo, ah o catecismo, ele que me fazia pecar. Onde já se viu acordar crianças na madrugada do sábado em plenas férias, pra ir ao catecismo? NÃO. E por que eu preciso ser católica? Por que não muçulmana ou judia? Sempre tive na minha cabeça que cada um deveria escolher sua religião, sua crença. Mas eu só tinha 10 ou 11 anos e minha mãe tinha o poder sobre mim. E é por isso que eu sempre ia pra outro lugar. A professora era uma gorda, feia e assustadora, ela cuspia enquanto pedia pra que nós rezássemos o credo e usava calças de malha remendada, horrível. Não fiz nenhum amigo no catecismo, também, se fui pra quatro aulas em longos dois meses foi muito, até que daria pra ser amiga de alguém, mas meu anti-socialismo não deixava e eles eram religiosos demais pra conversar com a menina que gazeava. O máximo que eu consegui foi ser a estranha marginalizada. E ainda deixaram que eu recebesse a óstia, quatro aulas mal assistidas e eu fui, toda santa e pura, receber a óstia. Até me confessei(fiz duas amigas na fila no confessionário, nem lembro os nomes, mas fiz), lembro do padre quase dormindo, fazendo cara de 'vamos minha filha, tenho mais uma fila de idiotices pra ouvir', inventei uma história incrível, que nem lembro mais, rezei alguns ave-marias e pai nossos, então era inocente novamente. A confissão é uma coisa sem nexo, o padre não tem nada a ver com isso, meu negócio é com Deus. Ai você aprende a pensar, questionar essas coisas que ninguém te ensinou na escola, e vê que as coisas não são tão simples quanto no começo, as interrogações aparecem e ninguém te responde, ninguém, porque eles têm medo, o sistema faz isso. Então você conhece Cazuza, numa caixa velha que a sua mãe guarda, e ouve 'no inferno e céu de todo dia'. Genial. Você passa a acreditar mais nele do que em todos os santos que você já viu nas missas, e que nunca fizeram nada por você. Inferno e céu de todo dia, era óbvio, estavam sempre na nossa cara, ao decorrer do dia. Você não precisa mais esperam morrer pra conhecer o inferno ou céu e até o purgatório, você só precisa estar vivo e saber observar. E no fim quem te ensinou isso não foi nem sua mãe, nem seu pai, nem a tia da escolinha, nem a gorda do catecismo, e sim um porra-louca, que fazia róque. E como não é mais novidade, o diabo é o pai do róque. Sigo assim, vivendo os infernos e céus, todo santo e maldito dia. E, às vezes, conversando (não rezando, eu não rezo) com Deus.

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