14 de maio de 2008

Não quero morrer com certezas(...)

Sobre a solidão
para FS.

Entender é trancar-se dentro da palavra. Quem não sabe, quem não sabe, quem não quer saber de nada... gruda a língua ao céu da boca, não escuta e finge que não vê. Entender é um outro nível da ignorância. Bastaria um toque, se fôssemos livres. Não é preciso nenhum livro para quem pode não ler. Se quisermos, amiga, não entendemos nada...Tem quem prefira os beijos às palavras. Tem quem não viva sem um off dizendo não o tempo todo. Tem gente de tudo o que é tipo. Só não devemos viver sem o sentidos. Sem a realidade, o objeto, o eu e o você. Somos infelizes. Jamais sobreviveríamos à liberdade de leves e inconseqüentes ações.Vamos...Vamos logo subir essa escada que leva o amor ao último andar. Estamos descalços e o mármore gela os nossos pés. Sobe pelo corpo o tremor do castelo que desmorona. Então vamos. Segura firme no corrimão. Respire fundo. Subir tão alto dá vertigem e olhar para trás deixaria-nos cegos. Os erros são medusas intransigentes. Arrancam as nossas lembranças boas e tatuam os desaforos e mágoas. Por isso marche, ainda estou contigo. Para ir até o fim da paixão deve-se estar acompanhado. Sinta o meu perfume enquanto o vento do tempo sopra esse bafo de mudança. Se quiser, dou-lhe o braço. Entraremos no salão da grande dança, a quadrilha dos desafortunados só começa quando um poeta recita a dor de um adeus. Pronto, mais algums passos e podemos nos soltar no espaço, livres, serenos e tristes. Vamos logo, não há mesmo como evitar a covardia, não há coragem para se ir até o fundo. É isso meu amor, agora só mais um degrau e você estará, de novo, em paz com seu coração vazio. Por isso vamos. O nada não inspira, não treme os sexos, não dá calafrios nem ciúmes, não cria o ódio, não teme o abandono. Ali, você poderá descançar sem culpa, remorsos, sonhos estúpidos. Amar proibido é muito, causa tanto estrago. E por isso, por tudo isso, vamos. No final, devo pedir perdão por tê-lo tocado. Agora pode largar minha mão, pode partir. Lembre-se ou esqueça-se de mim. Coração quebrado tem cura. A paz de não precisar mais aguardar a perfeição que não existe. Não estou mais agüentando. A ansiedade, não mais aquela por bombons, poderá me estourar as veias. É o pior momento esse, meio excitado, meio cansado, quando eu espero que campainhas toquem anunciando mudanças. Elas tocam, mas é somente um rapaz que me diz sobre uma encomenda, um engano, ou uma ligação familiar. Nada de mudanças, as mudanças minha cara, só nas cores do cabelo, nas roupas e nos dias da regra mensal. Não, não queiram que eu acredite que tudo que vive será eterno, igualmente bom, para o resto dos meus dias. Não posso viver com o igual. Não posso sobreviver ao certo. Não quero morrer com certezas. Então vá se foder e estrage logo esse lindo. Receio da confusão, o estresse. Do medo, a apatia. Das impulsivas atitudes, mágoas. Escuto música à alturas, quero somente amortecer os erros e mudar de idéia. Quem sabe o porquê do quê? 'Do que você está falando, mulher?' Nada, nada. É só a vida enchendo o saco com surpresas... Queria ser do século XVII, arfar o peito e ajoelhar num confessionário de madeira de lei. E eu não entendo porra nenhuma de madeira. Entendo de culpas, mas é negra a solidão de quem escreve. Na casa dos meus avós tinha móveis negros. Não tenho mais ninguém para mexer gavetas, e tomar coca-cola pequena no gargalo.



Fernanda Young.